terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Noite

Deixo o gosto se espalhar
no correr da lágrima
pela boca.
A solidão é tudo o que
mais cresce neste espaço.
A devastação do aborto
é dor vazia, contínua.
O eco das batidas do coração
estirpado perturbam.
Os sonhos interrompidos e os
cordões cortados são
venenos diários.
Doses lentas de desespero.
Tudo em mim sangra,
enquanto a vida se estanca.
Quero veias drenadas
e alma tranqüila.
Antes que seja tarde.
Antes que seja noite...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Para ela, em 2007...


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Hoje acordei muito contrariada.
Olhei na folhinha... Quase final do ano...
Meus olhos ainda noturnos percorreram o quarto.
E no canto direito perceberam o espelho.
Aquela ali sou eu?
Como deixei que a vida brincasse comigo...
Um dia, quando o passar do tempo ainda não tinha significado, quando apenas se fazia notar pela mudança no comprimento dos meus cabelos, o destino me estendeu as mãos e me arrebatou num rodopio pelo vento.
Eu achava que o mundo era pequeno e que uma parte dele me pertencia por direito.
E não tinha pressa.
E corria atrás de borboletas.
Mais tarde, ainda encantada com o lento escoar dos dias, tecia esperanças coloridas para enfeitar as janelas do amanhã.
Despreocupava-me com o inexorável passar das horas, já que nada mais eram que um tic-tac perdido no escuro do quarto, um moroso arrancar de pétalas de margaridas...

Agora descubro-me lenta, parada no mesmo capítulo.
Aquela ali sou eu?
Preciso que ela saiba que quase nada restou do seu mundo pequeno, que apenas uma borboleta ainda lhe beija a nuca, e que as esperanças não são coloridas.
Preciso que ela saiba que agora é preciso correr com os pés descalços, que não há mãos aladas para guiá-la, apenas o tic-tac dos seus passos pingados.

Ainda assim, quero que ela saiba que há chance...
Que o próximo ano pode ser um pouco melhor...
Que o tempo passou mas os sonhos não têm idade.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Essência

Foto AGB


Defino-me
não como alma
mas como matéria
Estrutura erguida
por sobre-humanos esforços
Creio-me carne
ossos e músculos
em engenhoso
caos de defeitos ocultos
Sou escultura genética
dotada de vida
Sou mistura de sangue
teimoso
costura de células
covardes
Sou corpo maltratado
por coração
e cérebro
que se devoram
em eterna cizânia

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Oculto

Foto: Subjugation

Meu amigo, se há em ti alguma fraqueza,
melhor que não te rendas a ela.
Oculta-a, esconde-a ou será teu fim.
Se abrigas dores, lamentos e sofrimentos,
vai direto à farmácia mais próxima,
onde possas comprar teu sono em comprimidos,
teu sossego embalado numa tarja negra
e teus analgésicos coloridos, porque algo em ti lateja.
Livra-te desses sinais de doença e de demência.
Deves ser impávido, forte, perseverante.
Deves sorrir se te perguntam como estás.
E tuas mãos não podem estar frias nessa hora.
Bebe água lentamente a cada vez que o coração
quiser deixar escapar um grito.
Diz a todos até amanhã,
ainda que penses em não retornar jamais.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Se Papai Noel existisse...


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Estou me sentindo estranha.
Não me compatibilizo com nada ou ninguém à minha volta.
Sou um ser avulso - todos os elos que me mantinham presa ao mundo civilizado parecem ter se rompido definitivamente. Estou solta num vácuo existencial, onde nada sinto além de uma dor profunda, uma sensação de não ser capaz de falar sobre mim, sobre o que penso ou sinto, sem ter a certeza de que o outro apenas me ouve educadamente, mas não chega a me compreender.
Meus sonhos agora me parecem piadas de mau gosto, um ridículo amontoado de eventos que nunca se realizariam no contexto em que me encontro, e só eu não via isso.
Não sei mais falar frases bonitas, não sei mais escrever poesias. Não compreendo mais o sentido da palavra esperança, mas poderia falar horas a fio sobre o que é o desencanto.
Estou cansada de ser triste. Estou cansada de ouvir minha voz, de ter a minha cara e de carregar meus valores, que parecem ser mais pesados que meus erros.
Queria apenas encontrar motivos que me fizessem voltar a sorrir até encher meus olhos de lágrimas, a fazer coisas tolas que não levam a nenhum resultado prático, a acreditar que Deus existe, que Ele me protege e que tem planos para mim (a comodidade infantil de ter quem cuide de meus problemas e de minhas dores).
Queria poder encher meu peito de amor sem ter de morrer por isso, sem ter de renunciar às minhas idéias para ver refletida a aprovação nas faces alheias.
Queria dormir uma noite inteira e acordar com a certeza de que aquele novo dia poderia ser especial e cheio de possibilidades.
Queria a simplicidade...
a inocência...
a ilusão...
a amnésia...

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Noite





Quando a noite caiu pesada sobre nós, eu ainda ouvia teus chamados ao longe. Em meio a tantas brumas, não podias sequer enxergar meu rosto, nem a saudade que nele se antecipava ou o desespero que nele havia.
Sim, os pontos de luz que vias caírem ao chão eram os que se desprendiam da minha alma, abandonando meus olhos. E as sombras que não decifraste, eram uma dolorida coreografia que se desenhava na escuridão: a dança de minhas mãos estendidas, lutando contra a partida, tentando ainda alcançar-te.
Em vão.
A noite caía... mais e mais.
A noite sempre cai, mesmo que sóis teimem em acender-se dentro do peito num último suspiro. Um dia ela cai sobre todos.
E no meio da noite, daquela última noite em que o sono não veio, ecos do passado, vozes vindas ninguém sabe de onde, nos espreitaram enquanto relutávamos contra o inexorável. É preciso, nessas horas, render-se à mãe-eternidade quando ela nos chama para um consternado abraço, enquanto a madrugada se prolonga em seu vagaroso tormento.
Depois dessa noite, não mais conseguirás ver meu rosto, mas te lembrarás dele nos olhos baixos dos infelizes que encontrares pelas ruas, no sofrimento dos mendigos de mãos abertas à espera do nada, na súplica silenciosa daqueles que velam a perda dos que mais amam. Saibas apenas que a exata expressão que ostento agora é a da aflição, e a marca que denuncia este corte agudo é a cicatriz que todo adeus deixa impressa nos órfãos do destino.
Tem cuidado agora, já que no meio da noite os caminhos certos e incertos se confundem; mas urge que sigas em frente. Faze-o por mim, por ti, porque isso é sensato. E quando a noite se for - porque ela se vai, ela sempre se vai - ficarás com a sensação de que tudo foi apenas um sonho. Esquece-o em meio à manhã que te sorrirá.
Nosso trajeto foi trilhado com plenitude, e o chão que deixamos para trás gerará flores vermelhas. Tua mão largou a minha, mas minha alma nunca abandonará a tua.
A realidade se encarregará de lembrar-te que a vida continua, e o retrato da memória te dirá, nas implacáveis noites futuras, o quanto eu te amei.

sábado, 29 de outubro de 2005

Nós

Saio de mim para experimentar de vez em quando esse delírio que é ser nós. Esse súbito eclipse, exercício do improvável, desprovido de caminhos a trilhar, de promessas a cumprir.

A soma do eu e do tu: um nós permeado de silêncios, de dúvidas e de incertezas. Um nós que desafia toda a racionalidade e a poesia, um nós cheio de espaços vazios que se preenchem inexplicavelmente quando nossos olhares se encontram. Um nós breve e transbordante, escrito pelos espaços anônimos, em momentos carentes de testemunhos.

Um nós que vive e morrerá sem que o mundo o eternize e o transforme em melodia, um nós que à luz do dia parece fadado a todo tipo de infortúnios, mas que no aconchego de nossas almas parece ser o paraíso perdido, uma ilha solitária que somente eu e tu conhecemos, onde barcos não aportam, onde nada mais acontece a não ser a concretização do que parecia impossível.


Foto: Jodie Coston

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Sem Vida


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Se outrora tivessem me dito, eu provavelmente não teria acreditado, mas o dia chegou, em que olhei teu rosto e senti apenas melancolia.
Não mais reconheci aquele que me trazia a vida, os sóis espalmados nas mãos e as cores refletidas nos lábios, mas um outro: um desconhecido, inexpressivo, morto...
Querido meu, nunca imaginei que tão cedo deitaria flores à grama e ergueria para ti uma lápide em meu jardim.
Aqui estou eu: Aquela que te amou. Vim dizer-te hoje que, para mim, já não vives.
A maior incoerência não é comunicar-te a morte, mas sim descobrir que na verdade nunca exististe de fato, visto que eras fruto das minhas idealizações.
Sim, era eu quem te mantinha vivo no meu mundo, e somente eu poderia tirar-te a vida.
Vejo-te agora inofensivo, patético. Enquanto estavas vivo, me assombraste e me causaste muito mais dores do que agora, morto. Leva contigo nossa história, ela não me serve e não me agrada. Guardo como relíquia, umas poucas lembranças dos sonhos de uma vida que nunca tivemos.
Sim, morreste... Mas não foi teu o sofrimento.
Fui eu quem sentiu na carne a dor lenta da tua morte.
Foi meu o castigo de saber que o teu coração não mais batia por mim.
Foi meu o tormento de tocar tua pele e não mais sentir o calor que dela emanava.
Foi minha alma que se apagou em luto.
Foram meus olhos que se turvaram numa cegueira penitente.
Aqui, a teus pés, jaz toda a minha vida.
E tu agora, apenas descansas em paz...

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Fraqueza

Instante - João Vasco

Queria saber que poder exerces sobre mim.
Não vou mentir dizendo que te quero, não posso pensar que te admiro, mas me dominas. Transformas meu arquitetado desinteresse em autêntico fascínio, e as horas que seriam tranqüilas transformam-se em incômodos, em lascivas agonias, em cenas mentais que desenho num exercício idílico.
Queria controlar a rebeldia que me percorre o corpo quando tão confiante te aproximas, como se soubesses da reviravolta que desencadeias em todas as minhas convicções.
Não me canso de voltar os olhos para teus defeitos, de usar a razão para pontuar nossas incontáveis diferenças, mas honestamente, não sei que opções me restam para escapar de ti e não sofrer mais, para me afastar dos ímpetos febris de correr para teus braços.
Não adianta partir, pois me encontras, num incessante jogo de sadismo.
Me entrego a ti então, desesperadamente... com essa fraqueza que me constrange.

Parto


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Quero nascer, brotar... Abandonar este ventre onde não penetra a claridade, esta membrana que me separa do mundo e tolhe meus movimentos.
Quero sentir que foi rompido o cordão que me alimenta e me amarra a uma única fonte de vida e de esperança.
Não quero fazer parte de nada, não quero pertencer a ninguém, não quero que me escolham um nome ou que me cubram a pele. Apenas quero que me toquem com carinho, que me abracem, que me aceitem na forma exata que eu tiver.
Aqui no vazio lado de dentro, ninguém percebe as súplicas mudas espalhadas nas minhas íris lacradas. Eu só quero dizer para o mundo o quanto preciso de amor.
Quero nascer, para que me olhem nos olhos, para que me ouçam os gritos, para que eu aprenda finalmente a difícil arte de conviver.
Enquanto chuto as entranhas do meu cárcere, enquanto me falta o ar e o espaço, reviro-me em minhas ânsias e procuras, mas nada encontro além de mim.
Aqui dentro não tenho história, não tenho lembranças... Aqui existo mas não tenho vida.
Quero sentir meu corpo pulsar, quero estender minhas mãos e encontrar uma flor ou um espinho, o amor ou a dor da incerteza. Não importa...
Quero aprender a levantar, mesmo sabendo que antes eu preciso cair.
Na hora do parto beijarei a mão que me trouxer para a luz,
ainda que ela segure uma faca e faça cortes no meu mundo, ainda que me deixe na boca um certo gosto de sangue.