Há um mundo escondido. Um lugar cheio de músicas que tocam alto, aquecendo meu coração e nublando tudo em volta. Esse mundinho é cheio de praças, de velhas casas pintadas de branco, de caminhos compridos e um mar azul batendo na praia. Há crianças desenhando no cimento com pedras coloridas nas mãos. E lá, os finais de tarde são cor de laranja, nostálgicos.
Há pessoas que caminham nesse mundo. Elas vêm e vão, dizendo ou fazendo coisas que ninguém mais sabe. Algumas delas nunca se encontram, não se conhecem, e talvez nem saibam que moram ali. Essas pessoas parecem desconhecer o tempo, não envelhecem e nem morrem, estão sempre iguais, cristalizadas pela mágica da memória.
Não, esse mundo não é perfeito. Nele há alegrias, mas também há sofrimentos terríveis, há lembranças que machucam e muitas perdas... Perdas inaceitáveis e repentinas ou inevitáveis e esperadas. Há portas fechadas, que encerram imensas salas cheias de retratos amarelados pendurados pelas paredes. Lindas fotos tiradas durante uma vida inteira por alguém que adora colecionar emoções.
Esse mundo eu visito sempre. Fico ali tempos esquecidos e, a cada vez que retorno, pareço diferente. Nele tudo acontece como numa ebulição: Borbulham histórias de velhos livros, beijos e abraços que não perdem o sabor, cartas amarradas com fitas azuis em fundos de gavetas, nascimentos, mortes, amores não correspondidos... E uma menina... Uma menina com vestido azul marinho e flores amarelas bordadas pela mãe, que corre sozinha atrás de um pequeno cachorro marrom.
Abro os olhos e choro.