sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Ajuda

Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Era ainda uma criança, 
em frente à porta trancada do quarto de minha mãe
braços pendentes, ombros arqueados, ouvidos atentos
à espera de qualquer ruído 

Da porta para dentro tudo era silêncio
apenas minha mãe e a raiva
Da porta pra fora somente desespero
e a única certeza de que o erro era meu

Naquela altura eu não imaginava
que essa seria somente a primeira porta
de tantas outras que me seriam fechadas

Tinha pavor do silêncio do lado de dentro
e da solidão do lado de fora

O silêncio podia significar a morte
a morte que minha mãe anunciava
ao trancar-se naquela prisão

Muito mais tarde entendi que a prisão
poderia estar em qualquer dos lados
tanto fazia... ela é o lado que pune
e separa os que erram dos que não perdoam

As fábulas nos dizem que palavras abrem portas
então repeti milhares de vezes: "me perdoa", "eu te amo" 
e, por fim,"Senhor, me ajuda"...

A criança cresceu, porém a cena se repete:
uma porta trancada, duas mulheres e duas prisões.
Do lado de fora estou eu: braços pendentes, 
ombros arqueados e ouvidos atentos
 à espera de qualquer ruído.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Coisas que não te contei...

Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Para proteger-te
estendo os braços, cerro os punhos
posto-me à tua frente
e não consinto que te abatam

Para cuidar de ti
adormeço antigas dores
amordaço gritos teimosos 
e não permito que enfraqueças

Para te ver sorrir
escondo as incertezas
silencio sonhos particulares 
e não te abandono às tempestades  

Para que progridas
ensino-te a ser livre
encorajo-te a ser forte
e não te prendo aos meus passos

Para que cresças e vivas
faço-me esquecida, faço-me sozinha
preparo meu melhor aceno
e não te revelo o mar no meu peito

Para que sejas feliz
falo que nada quero ou preciso
visto-me de frescor e primavera
e não confesso que te poupo de mim.

domingo, 4 de maio de 2014

Audrey

Fonte: Imagens do Google

Nem diz o que pensa 
a boneca miúda
tão frágil, tão bela
de olhos cerrados

Também, não precisa
pois tanto primor 
dispensa bramido
e desperta o silêncio

Brinquedo de vidro 
com arte entalhado
desenho perfeito
de harmonia e leveza

Mocinha bonita
teu rosto tranquilo
enfeita, fascina
te adoro, menina...

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Porvir

Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Adeus a tudo que fiz
adeus promessas 
adeus passos apressados
adeus fins de tarde
adeus música ao longe

quero estar onde nada há

adeus ao que não esqueço
adeus ao que não tive
adeus abraços doloridos
adeus sorrisos escondidos
adeus olhares curiosos

quero estar onde nada há

adeus estrelas cadentes
adeus instantes eternos
adeus resistências
adeus desespero
adeus ao que deixei ficar

quero estar onde nada há
quero o mistério
quero a luz 
de um tempo que ainda virá.

sábado, 5 de abril de 2014

Ostra

Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Tenho evitado as pessoas
me afastado de casas, de ruas
de lugares onde sou reconhecida
tenho me escondido de espelhos
de fotografias
tenho me retirado do tempo
sufocado memórias
vestido-me de sombras
coberto-me de anonimato
ocultado-me de tudo

porque o compartilhar me cansa
o conviver me exaure

são poucas as vozes que me acalmam
são raros os sorrisos que me alegram
e são poucos os braços que me salvam

sábado, 29 de março de 2014

Descompasso


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Caminhamos tanto
durante muito tempo
e não sabemos bem
onde chegamos

Nas passadas rápidas
nos esquecemos
quem somos
e o que queremos

Nossas mãos se desataram
o cansaço nos guiou
e agora, não há palavras
nós dois: nenhuma frase

Deito-me em teu colo

teu olhar distante
... no ontem
meu olhar distante
... no amanhã

Acaricias meu rosto
... eu choro


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Tarde Gris


Reconheço-te nas brisas de julho
sei de ti
de tua essência
e percebo tuas frases nas fotografias
enxergo as cores da tua poesia
mas somente isso
te entendo
e nada mais

à minha frente
nesta tarde cinza
pareces-me pequenino
e tão perdido...

vou contigo
estás comigo
e assim tem de ser, tem sido.

domingo, 18 de agosto de 2013

A Porta


Há uma porta entreaberta
que range e bate com o vento.
Há essa porta encerrada pelo tempo
entre mim e o mundo.

Veste-me de clausura
 e de silêncio me cerca.
Ninguém sabe quem sou.
Jazo num canto
do outro lado da porta.

Folheando minutos
abraço-me à esperança
de passos ou vozes
que nunca me alcançam.

Lá fora, o sol cobre-se de noite.
As sombras me envolvem
enquanto eu sonho com a luz.

Um brilho dourado
me toma num pulo
e me arrastam para longe
os gritos da infância.

Ah, não fosse a fronteira
entre mim e o mundo...
eu seria a liberdade 
e não a surdez ou a cegueira.

Mas o sonho se vai
e eu amanheço
A porta range com o vento
e eu envelheço.

Ninguém bate à porta.
Sabem-me morta.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ninho vazio

Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Acabou-se o nosso tempo
num início de outubro.
Veio-me um frio cortante
e, com ele, a extensão do vazio
transpassou-me o ventre.
Este ventre que um dia foi teu.
E tu, que preencheste minha vida,
agora largas a minha mão.

Que som ocupará o lugar do teu sorriso?
Levaste embora também teu perfume.
Deixaste-me somente ecos do meu coração
e a palavra saudade escrita pelas paredes
junto aos desenhos que outrora me ofertaste.
Nossas conversas e segredos
ficaram-me na lembrança.
E tua ausência hoje me desespera.

Não há volta, nem solução.
Tua vida precisa expandir-se
enquanto a minha definha...

Meu anjo, minha luz,
segue teu caminho
sem preocupar-te comigo.

Meu leito voltou a ser escuro.
Adormeço
sentindo a solidão estender sobre mim
o lençol do silêncio.

domingo, 17 de junho de 2012

Aparências

Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


HOJE não me encantam aparências, nem me seduzem promessas
porque de tanto acreditar, um dia aprendi
que os sentidos nos enganam
que cair machuca e cansa... 
Apegos também não os tenho, pois muito apanhei e perdi.
Agora vivo com pouco, e é por este motivo
que minha canção, para alguns, não tem melodia
e é infértil a minha poesia.
Delas não brotam sonhos, nem cores...
Somente alertas germinam
em meio às palavras que deixei.
Não lamento, não reclamo...
Tudo faz parte do caminho, do destino árduo que trilhei.