segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Adeus...


Foto: Acervo Getty Images



Caiu o peso, foi-se a força.
Com ele a vaidade
desabou no chão.
Toda a fúria, toda a história.
A mão firme
tremeu sozinha
A voz não se ouviu, o ar não supriu.
Memórias flutuaram p
or todos os lados.
Os olhos da alma procuraram o nada
... ou o tudo
A vida se escoou em cada segundo.
O cansaço, a agonia, o silêncio
de um rosto que sumia
em meio a dor e a vontade de lutar.

Uma lágrima escorreu perdida...
Levou da mente lembranças,
deixou a perplexidade na face
e nos olhos de todos


Seria a hora?

Nos abandonarias.
Partiste.
Foste sozinho para tua nova jornada
Deixaste-nos o vazio dessa louca ilusão
que é viver.

Para Heitor.
30-AGO-1954/12-SET-2008

domingo, 27 de janeiro de 2008

Concreto

Foto: Angels - de Reza Razimifami

Ainda que o amor os assuste, não irá amordaçá-los.
Não irá traí-los ou cegá-los.
Se não supre, se não sacia, se não preenche as expectativas
lamentará simplesmente, a oferta rejeitada.
Ainda que o amor ultrapasse os limites, não os impedirá
de irem aonde puderem, aonde quiserem.
Se os invade, se rompe contratos, se remexe águas paradas
sofrerá apenas, pelo tempo não aproveitado e não sabido.
Ainda que o amor nada peça ou espere, não será imortalizado
Um dia ele se extinguirá... e então a dor parecerá imensa.

Se a possibilidade do amor os dilacera, os faz sangrar
e se escolherem não mostrá-lo,
esqueçam-no.
Mas nunca o ocultem ou o ignorem.

Digam honestamente ao outro:
"Não te amo. Segue em frente."

Não ser amado é uma grande lição.
É abraçar-se apenas ao amor sentido...
É esquecer sonhos que fagulham pelo ar...

Se as palavras de amor que lhes foram ditas
e as mãos calorosas que lhes foram estendidas
não selaram o convite e não fizeram sentido,
é porque no peito
os escudos do medo calaram mais fundo.

E optaram por continuar desconhecendo o que seria único...
O que seria a felicidade, quando tudo o que havia era a incerteza...
O que seria a tentativa, quando tudo o que havia era a acomodação...
O que seria coragem, quando as asas do destino lhes apontava o caminho.

As vozes ignoradas lhes diziam...
Não querem mesmo ir além?
Não podem mesmo tentar?
O futuro é tão incerto quanto o que seus olhos vêem toda manhã?

E o universo imprimiu um lamento.

Eram como anjos de concreto frente a um inexplorado céu.
Duras bases imaginárias os prendiam ao chão.
Sonharam com o vôo, mas nenhum movimento fizeram.
E dormiram em paz, sob um amplo céu vazio.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz Ano Novo


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


O normal seria vestir branco
Seria beber champagne
E soltar fogos na varanda
Também seria normal
Comer lentilhas
Fazer simpatias, ter esperanças
Pular sete ondas
Escrever planos na agenda

Mas isso seria o normal
E eu não quero
nada assim

Quero o anormal
O inesperado
O meu próprio tsunami...


quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Solitude


Foto: Acervo Getty Images.


Não a procurem em velhos álbuns de fotografias.
Depois de tanto tempo, descobriu que não cabia nem no seu nome.
Fugiu de sua cidade para encontrar amigos. Fugiu de sua antiga religião para encontrar Deus.
Mudou de endereço e levou apenas lembranças.
Saiu de férias pra outros lugares. Ganhou mundo.
Quebrou suas cercas. A sensata virou louca.
A menina das fotografias virou a mulher que, em divãs, falou a estranhos sobre si mesma. E foi com estranhos que descobriu quem era e o que queria.
Não a procurem nas canções que um dia amou.
Outros sons a conquistaram e hoje ela nem lembra dos acordes da juventude.
Não a procurem nas bibliotecas que freqüentou. Acabou preferindo viver outras vidas projetadas em telas de cinemas.
Mas não a encontrarão mais nos cinemas, nem por trás dos enormes sacos de pipocas, com as mãos umedecidas por lágrimas silenciosas.
Àqueles que ainda tiverem cartas por ela escritas: Saibam que ali somente os fatos permanecem coerentes, relatos de alguém que já não pertence àquelas letras.
Busquem-na (sim!) nas poesias de Neruda, versos de palavras nobres e atemporais.
Ela sempre estará ali, em meio àqueles poemas, sentada aos pés dos trigais em flor, respirando todo aquele amor que não era dirigido a ela, mas a uma outra Matilde.
Ela se perdeu em seu labirinto, onde ninguém entra, o tempo não existe, onde os sonhos não passam do dia de amanhã.
Num dos corredores escuros pendurou apenas dois retratos, dois rostos amados. Sei que olha para eles todos os dias, já que não tem janelas e seus olhos escuros não enxergam paisagens.
Ela ainda se recorda do que foi, do que esperou, do que amou.
Porém, abandonou-se, abortou-se e pagou o preço: Morreu pela metade, para descobrir que após a morte ainda continuava existindo através das pílulas.
Não é um problema, mas uma libertação: Rasgam-se os mapas, as regras, os contratos e a própria carne vai junto.
Hoje se embriaga, se afoga em si, pobre criatura de passos curtos. Dá vexame e ninguém vê.
No hay banda.
Provavelmente ali não haja mais nada.
Apenas ela e seu subsolo. Solitude. O último degrau da dor.
Mas os exames de sangue dizem que ela está bem.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

(Des)Encontros

Foto: MVCorreia

Teu olhar tocou o meu
Teu rosto tocou o meu
Tua boca tocou a minha
Teu corpo tocou o meu

Tua mão juntou-se à minha
Tua mente juntou-se à minha
Teu sonho juntou-se ao meu
Teu presente juntou-se ao meu

De ti flori...
De mim também...

Tua impaciência somou-se à minha
Teus problemas somaram-se aos meus
Tuas diferenças somaram-se às minhas
Teus descasos somaram-se aos meus

Teu coração se distanciou do meu
Teu sorriso se distanciou do meu
Teu futuro se distanciou do meu
Tua vida se distanciou da minha

De ti morri...
De mim também...


domingo, 12 de agosto de 2007

Outra Estação



Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.



Quando desabrochei numa linda flor,
o jardineiro andava ocupado.
Eram tantas as flores espalhadas pelo campo...
não havia tempo para a cor e a beleza de uma só.

E a primavera passou. Eu, flor, passei.
Lembro-me ainda do perfume que ofertei.
Ninguém o sentiu.

Morreu com a flor, o sol que esperou.
O jardineiro não soube da semente que plantou
nem soube da flor, que floriu em vão.

Eu vegeto e resisto, ano após ano,
sobrevivo de chuva e poesia
Dentro de mim jaz a lembrança de uma flor...

Uma flor que nos sonhos não murchou,
que ainda aguarda outra estação,
outro jardineiro
mais modesto e cuidadoso.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Noite

Deixo o gosto se espalhar
no correr da lágrima
pela boca.
A solidão é tudo o que
mais cresce neste espaço.
A devastação do aborto
é dor vazia, contínua.
O eco das batidas do coração
estirpado perturbam.
Os sonhos interrompidos e os
cordões cortados são
venenos diários.
Doses lentas de desespero.
Tudo em mim sangra,
enquanto a vida se estanca.
Quero veias drenadas
e alma tranqüila.
Antes que seja tarde.
Antes que seja noite...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Para ela, em 2007...


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Hoje acordei muito contrariada.
Olhei na folhinha... Quase final do ano...
Meus olhos ainda noturnos percorreram o quarto.
E no canto direito perceberam o espelho.
Aquela ali sou eu?
Como deixei que a vida brincasse comigo...
Um dia, quando o passar do tempo ainda não tinha significado, quando apenas se fazia notar pela mudança no comprimento dos meus cabelos, o destino me estendeu as mãos e me arrebatou num rodopio pelo vento.
Eu achava que o mundo era pequeno e que uma parte dele me pertencia por direito.
E não tinha pressa.
E corria atrás de borboletas.
Mais tarde, ainda encantada com o lento escoar dos dias, tecia esperanças coloridas para enfeitar as janelas do amanhã.
Despreocupava-me com o inexorável passar das horas, já que nada mais eram que um tic-tac perdido no escuro do quarto, um moroso arrancar de pétalas de margaridas...

Agora descubro-me lenta, parada no mesmo capítulo.
Aquela ali sou eu?
Preciso que ela saiba que quase nada restou do seu mundo pequeno, que apenas uma borboleta ainda lhe beija a nuca, e que as esperanças não são coloridas.
Preciso que ela saiba que agora é preciso correr com os pés descalços, que não há mãos aladas para guiá-la, apenas o tic-tac dos seus passos pingados.

Ainda assim, quero que ela saiba que há chance...
Que o próximo ano pode ser um pouco melhor...
Que o tempo passou mas os sonhos não têm idade.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Essência

Foto AGB


Defino-me
não como alma
mas como matéria
Estrutura erguida
por sobre-humanos esforços
Creio-me carne
ossos e músculos
em engenhoso
caos de defeitos ocultos
Sou escultura genética
dotada de vida
Sou mistura de sangue
teimoso
costura de células
covardes
Sou corpo maltratado
por coração
e cérebro
que se devoram
em eterna cizânia

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Oculto

Foto: Subjugation

Meu amigo, se há em ti alguma fraqueza,
melhor que não te rendas a ela.
Oculta-a, esconde-a ou será teu fim.
Se abrigas dores, lamentos e sofrimentos,
vai direto à farmácia mais próxima,
onde possas comprar teu sono em comprimidos,
teu sossego embalado numa tarja negra
e teus analgésicos coloridos, porque algo em ti lateja.
Livra-te desses sinais de doença e de demência.
Deves ser impávido, forte, perseverante.
Deves sorrir se te perguntam como estás.
E tuas mãos não podem estar frias nessa hora.
Bebe água lentamente a cada vez que o coração
quiser deixar escapar um grito.
Diz a todos até amanhã,
ainda que penses em não retornar jamais.