terça-feira, 29 de março de 2011

Raiz



Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Algumas coisas parecem nascer mortas.
Insistimos nelas teimosamente,
buscamos reações onde não existem,
queremos dar-lhes vida, sopro
e ânimo, mas nada nelas nos responde.
Todas as tentativas se esgotam
nos mesmos resultados vazios...
É perda de tempo investir em erros,
enganos, mentiras e vaidades.
Qualquer situação que resulte
deles, estará com os dias
fatalmente contados.
A felicidade necessita de raízes
nutridas com substâncias mais nobres.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Fim


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


O fim deveria ser normal
já que tudo neste mundo é passageiro.
Mas este momento sempre assusta.
Há um fim para absolutamente tudo
e, a cada vez que ele acontece
a dor e o vazio inexplicavelmente
nos pegam pelas mãos.
Talvez porque o fim liberta e modifica,
embora nem sempre queiramos
liberdade e mudanças.
Porém, o fim tem vontade própria
e com ele não se negocia.
Ele chega na hora que quer,
mesmo não parecendo a hora certa.
Sonhos terminam
Medos passam
Amores acabam
Pessoas desaparecem
Ao encontro do fim caminhamos
desde o nosso primeiro passo.
Por que não aceitá-lo, então?
O fim é nosso recanto
e nosso ventre final.
A outra ponta da fita.
A outra margem do rio.
A saída do túnel.
A entrada do casulo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Abrigo





Será mesmo necessário concluir tudo o que se inicia?
E quando palavras que deveriam ter sido ditas
nunca cruzaram a garganta?
E se os passos que deveriam trilhar pequenas distâncias
se intimidaram em meio ao trançado de pernas indecisas?

Nada pode alterar o passado
ou mudar o que foi deixado para depois.
A vida caminha e passa por cima
de tudo o que não foi feito,
não foi dito ou não foi decidido.
Cada dia com suas próprias oportunidades,
com suas chances e tentativas
de se pronunciar boas palavras,
de se encontrar desfechos melhores,
de se avançar nas direções desconhecidas.

A cada dia se soma um pouco de coragem
para continuar acreditando na vida,
apesar dos sussurros de velhos fantasmas.
Temer os desafios e os erros é bobagem,
pois eles fazem parte do processo.
É tudo tão óbvio que dá até dó...

E enquanto o hoje acontece
é mais simples continuar imóvel,
se escondendo, se negando a mudar
as cláusulas de um contrato
assinado há tempos com o destino.
Um destino que nada mais é
do que o resultado das escolhas,
até mesmo as preteridas.

sábado, 12 de março de 2011

Jardim esquecido


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Quando me distraio e afirmo: "o amor não existe"
lembro-me das batidas fortes
que antigamente brincavam com meu coração.
A vida passava por dentro dele, ocupando
os espaços, preenchendo meus dias
e transformando o mundo num imenso jardim.
E se hoje me questiono sobre a felicidade,
volto no tempo, num sorriso de moça
que se desenhava nestes lábios tão secos
e quase consigo escutar o som de fortes
gargalhadas nascidas de motivos banais.
Certamente o amor e a felicidade existem
e creio que habitam os corações e lábios dos jovens
para um tempo depois a vida levá-los embora,
nas asas de uma borboleta.
Hoje, já esgotadas as esperanças
e depois de tantas dores
é preciso que eu me esforce
para lembrar que ambos cruzaram meu caminho...

quinta-feira, 10 de março de 2011

Incompleta


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Quero ir dormir agora
e amanhã acordar diferente
uma outra pessoa
desconstruída
como papel picado
nas mãos de uma criança.
E nessa bagunça
todas as minhas peças
serão jogadas ao chão
reviradas, misturadas, quebradas
para depois juntar cores, pedaços
remontar os bloquinhos
e ir encaixando novas peças
fazendo tudo ficar diferente.
Quem sabe um efeito moderno?
Um design mais leve?
Quero ficar irreconhecível.
Quem sabe mudo as cores
ou os formatos...
Quem sabe as peças menores
ganhem espaços mais altos
e as maiores sirvam de alicerce...
Pode ser que me faltem alguns pares
ou que o quebra-cabeça fique incompleto
para sempre...
Pode ser que surjam espaços vazios
preenchidos somente pela luz.
Mas é exatamente isso que quero:
Que não reste nada,
absolutamente nada
da figura que sou hoje.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Muro


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


De repente não ouço mais...
E o não ouvir
traz consigo o não saber.
Passo o tempo com o que me sobra,
a adivinhar e a sonhar.
Construo frases e situações
que não me acontecerão mais
e misturo-as com lembranças
meio assopradas pela mente,
como dentes-de-leão soltos pelo ar.
Sorvo do fundo deste cálice
uma gota de alívio
para esta irreversível distância
que anda sempre comigo.
Há momentos como os de hoje,
em que quase consigo materializar
o que não vivi
e tentar saber como teria sido.
Abro os olhos e o muro está lá.
Sento-me no chão, sozinha.
Vejo luzes que cruzam o céu...
Elas vão para algum lugar...
Eu não.
E recostada ao muro,
conformo-me com a solidão.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Ampulheta


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Falarei sobre a menina que, durante a noite, abria as janelas de seu quarto para olhar o céu.
Em meio ao contorno escuro da copa das árvores, enxergava a lona tingida de negro que envolve a Terra. Nela havia vários pontos de luz; um bordado celestial. E era essa imagem que prendia o olhar da menina por um longo tempo, até que seu sono chegava.
Com o sono, vinham-lhe imagens oníricas de estrelas cadentes, de naves que pairavam em frente à sua janela, convidando-a a viajar pelo espaço e pelo tempo.
Muitas vezes o medo a acordava, embora tais sonhos lhe trouxessem um fascínio pelo desconhecido. E assim, ela acostumou-se a fazer suas secretas e solitárias viagens.
Passou a ouvir com atenção os ruídos escondidos na noite e a tentar decifrar-lhes as mensagens.
Durante o dia, fechava os olhos e abusava do seu direito de tecer fantasias.
Assim, construiu uma ponte imaginária que a levava à esperança de que algo incrível pudesse acontecer-lhe um dia. 
Mas os dias foram se passando, e no quarto da menina não couberam mais tantos sonhos. 
E a menina cresceu. Estudou e trabalhou. Mudou-se e deixou seu quarto para trás.
Os sonhos? Ficaram por lá.
Nunca mais voltou aos lugares fantásticos que visitou.
Ainda hoje ela observa as estrelas através da sacada de seu apartamento. Porém, elas não parecem mais tão brilhantes... Estão meio encobertas pelas luzes da cidade e pelas lágrimas que escorrem com insistência de seus olhos cansados.
Não consegue mais sonhar acordada, não acredita em naves peregrinas. Só consegue enxergar uma grande ampulheta desenhada no firmamento, com grãos luminosos que parecem cair muito rapidamente.
Talvez seja essa a nave que um dia virá buscá-la.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Instante


De quanto tempo
é feito o instante
em que o agora já não é mais
o que me acomoda?
Temo o instante seguinte
que me aguarda
com o que desconheço.
Nele tudo se abriga...
O degrau ou o declive.
Nele incertezas se escondem.
Nesse (in)exato momento
as possibilidades se multiplicam como fogos de artifício num céu escuro.
Não, não me encanto pelo que não sei,
nem por esse futuro que me espreita.
O instante seguinte pode ser o nada, o fim.
Por isso, volto meu olhar para o conforto do passado, o ninho quente das memórias.
No futuro, quem sabe quantas partes de mim
ainda perderei?


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Receita rápida...


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Ama ainda que não sejas amado
ajuda sempre a todos
ouve os desabafos que te fazem
não conta os segredos alheios
torna-te amigo e conselheiro
divide todo o teu conhecimento
confessa teus sentimentos puros
te mantém disponível
sorri ainda que sem vontade
compreende as razões do outro
perdoa sempre
faz sem esperar retorno
atende ao telefone (a qualquer hora)
responde ao email (sem demora)
não esquece os aniversários
visita os doentes
recebe os que te procuram
não reclama de teus infortúnios
oferece carona
divide as despesas
não fales mal de ninguém
e assim...
quando precisares de um esteio...
terás sempre o teu psicólogo

por isso, 
antes de desfrutares do amor
ou dos grandes amigos,
encontra um bom terapeuta.

sábado, 27 de novembro de 2010

Tempo


Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.

Faz tanto tempo
Quando as rosas enfeitavam o caminho
Tempos que se acreditava em futuro
Os ventos só traziam novidades
As horas emolduravam momentos inesquecíveis
Teu rosto... um sorriso, um abraço, um beijo
Faz tanto tempo
Quando o coração batia apressado e feliz
A espera era atenuada com certezas
Havia frio nas mãos e cor nas maçãs do rosto
As palavras saiam dos lábios suaves e doces
Tua presença... um sonho, um encanto, uma alegria
Faz tanto tempo
Hoje caminho sozinha, repleta de lembranças
Nossas palavras tornaram-se duras
Nossos sorrisos sumiram da face
Meu mundo tornou-se triste e sem cor
Minha alma perdeu-se da tua
Faz tanto tempo
E ainda estou aqui...
Sem saber bem o que faço
Com este tempo, que me parece ser tanto.