sábado, 18 de fevereiro de 2017

Meus rios



Foto: Rio Negro, por Ray Baniwa

Naquela noite havia lua.
Minha alma pediu-me: vai! 
A saudade gritou-me: parte! 
Cansada, estendi os braços,
senti o vento a me embalar.
Busquei o firmamento,
vi um céu sereno,
salpicado de estrelas.

Eu, que havia estado 
no fim do mundo
e não encontrara alento...
Por muitas e longas noites
chorara pedaços da minha vida
até transformá-la, 
minuto a minuto,
num imenso rio de saudade.

E as águas profundas
que brotaram de mim,
revelaram-me cidades e aldeias
tal qual os rios de minha terra...
Nascentes que geram vidas,
ouvem lamentos de mulheres,
guardam segredos de guerreiros
e acalmam a sede de animais.

Rios escuros, solitários,
jazigo de náufragos...
Rios sagrados, antigos,
templos dos deuses da floresta.
De dia, cálidos e serenos
banham crianças, 
lavam roupas, conduzem barcos,
misturam lendas a esperanças...
Queridos rios da minha terra.

De noite, misteriosos,
carregam monstros adormecidos.
São assim aqueles rios
de águas mornas e ferozes.
Quero misturar minha vida
aos rios da minha terra,
partir com eles para longe
sabendo que jamais voltarão.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Oásis



Foto: Desert Child, por Alisdair Miller (in DeviantArt)

O que sei do nada
é que não existe sozinho
O tudo é seu anverso
e um sempre estará
onde o outro já esteve
pois nossa vida é fadada 
a períodos de privação
e temporadas de banquetes

Não adianta temer o nada
e almejar o tudo...
Há sobressaltos em ambos
e um enreda-se ao outro
num contínuo ciclo tirânico

O que sei do tudo
é que nos embriaga,
nos pega pelas mãos
e nos ensina a voar
Mas não se demora
e deixa como legado
pobres sepulcros viventes
a gemer úlceras abertas

Para mim, o nada ter
é preferível a esperar
que tudo volte a acontecer
e em meus extensos desertos 
rabisco oásis pelo horizonte

É o nada, 
mas invade 
É o nada, 
mas inunda 

É o nada, 
há quem pense... 
e, apesar de nada, 
sempre vence.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

(Des) gosto

Foto: Tears of Sadness, por Don Vu (in DeviantArt)

Sentia o doce desfazendo-se
na ponta da língua
que se encharcava de mel
quando dizia "eu te amo"

Outras vezes era a amargura
a lhe retalhar a língua
desagradável como fel
quando dizia "adeus"

Agora, pelas tardes de setembro
restou-lhe o gosto de sal
que lhe desce dos olhos à língua
quando nada mais diz...

Texto revisto.
Inicialmente publicado em 02/11/2003. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Busca

Foto: Swimming Towards the Light, por Cole Thompson

Agora me lembro...
em minha infância
contemplava essas águas
imaginando tesouros
e perigos ocultos

afundava minhas mãos
o mais que podia
quase como se quisesse
agarrar o que não via

as mãos voltavam molhadas
às vezes com lodo
às vezes sem nada

O tempo passou
eu caminhei pela margem
até chegar onde estou
esquecendo-me aos poucos
dos mistérios de outrora

e naquelas águas
matei a sede dos dias
na sombra das margens
plantei o que sou

até que num sonho
as vozes das águas
chamaram por mim

e agora me lembro...
dos tesouros e perigos
e sinto novamente
vontade de alcançar
o que não vejo

Afundo as mãos ansiosas
mas elas voltam vazias
o sussurro das águas me diz:
nada há na superfície

coloco então meus pés
nas correntezas febris
despedindo-me da margem

e naquela incerteza
mergulho-me inteira
até que o corpo 
não mais me pertença

enfim, no solitário abandono
no berço profundo das águas
encontro o que tanto procuro.

domingo, 18 de setembro de 2016

Cicatrizes

(Republicação. Texto revisto).

Foto: Andy Warhol, por Richard Avedon

As garras afiadas
do passado
cravaram-se em meu peito
rasgaram-me a pele
abriram-me feridas
por onde escorreram
sangue e quimeras

O mago do tempo
banhou-as em lágrimas de sal
e seu bálsamo generoso
transformou o massacre
em suaves lembranças da dor

O mapa do sacrifício
sobre a pele do cordeiro
foi violento e feroz
passou-se o tempo
curou-se a carne lacerada
restou a alma castigada

A chacina sossega as feras
e no repouso passageiro
não mutilam mais a vítima
apenas a observam
pacientes e impiedosas
antes da nova investida 

Se agora exibo e revelo 
estes feios vestígios
de um passado perverso
é para avisar-te do perigo
para que fujas do cativeiro

não quero tua compaixão
pois não me rendi aos leões
desfiguraram-me a pele 
mas não me tiraram a vida

Afaga-me somente
pois ainda me doem as cicatrizes. 

domingo, 11 de setembro de 2016

Tecelã

Foto: Imagem do Google, desconheço a autoria.


Teus passos são lentos 
andas em plumas 
escondes as garras 
não assustas 
mas avisas: há perigo! 
E espreitas satisfeita 
a captura concluída 
quando enfraquecem vozes 
e calam-se os gritos 
até que não restem forças 
nem tempo pra nada 
até que se prendam 
emoções, corpos e mentes 
em tuas finas e sedosas
teias macabras 
E assim prossegues 
tecendo os tapetes 
que serão estendidos 
para que te alimentes 
de vidas alheias.


Data estimada da 1ª publicação: 31/01/2004.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Red Satin


Texto publicado pela primeira vez em 12/02/2004, no meu antigo Blog do site Webbloger.
A nostalgia abre gavetas...

Sexy Red Shoes, by Nick Freemon.

Ecoa pelas paredes um contínuo tic-tac marcando a cadência das horas
e o moroso arrastar da rotina. 
Cravo as unhas nos ouvidos para abafá-lo, mas não consigo
todas as noites o mesmo ritual:
o caminhar noturno da mulher de saltos altos.

O ruído do seus passos perfura-me o cérebro... 
uma onda de loucura me atinge o pensamento
E eu a odeio.
Odeio suas longas garras e seu riso de deboche
a firmeza e a malícia de seu caminhar

Repugna-me o cheiro do cigarro que ela descarta pelo chão
com vestígios vermelhos de batom barato.
E enquanto caminha, ela repete seu mantra preferido:

"Não há fuga"
"Não há fuga"


Tento enfrentá-la.
Ela exibe o ácido desdém, zomba de mim com uma gargalhada medonha.

"Não há fuga" 
"Não há fuga"

Quero expulsá-la daqui, então a insulto e a ofendo
Chamo-a de ordinária.
Ela ostenta o mesmo sorriso. 
Chama-me então de covarde e diz que a invejo.
E eu a odeio mais ainda por ter razão.

domingo, 4 de setembro de 2016

Céu Vazio



Foto: Kasia Derwinska - Fairytales

As nuvens da liberdade passeiam suaves
pelo céu que há em mim
lembrando-me de que, finalmente,
posso viver sem preocupações

os velhos pecados ficaram para trás
os enganos foram perdoados
nada mais há entre mim e a imensidão

por que então este vazio?

os desejos diluíram-se aos poucos
na ventania desse cosmos particular
e os antigos ecos de raiva e crueldade
foram sepultados e esquecidos

aqui onde estou
escuto apenas uma brisa fresca 
e a tranquilidade solitária dos meus dias

não há vozes ou alvoroços...

ninguém sabe exatamente onde estou
ninguém pode mais dizer quem eu sou
e este, este é o meu céu azul
onde posso viver sem preocupações

aqui não há lutas ou desafios  
não há escolhas ou trapaças
e as respostas são desnecessárias

por que então este vazio?

Confesso que deperdicei muitos anos 
em meio a desacertos e sofrimentos
quando eu imaginava ter força bastante
e coragem para enfrentar o tempo

Percebo agora, em meio à calmaria,
que meu futuro é bem breve
e que o amanhã me causa medo

o que estará oculto no desfecho?

no momento em que serei tudo e nada
em que me banharei de luz e paz
sem limites de corpo, mente ou alma
apenas eu

e este vazio que há em mim... 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Inverso


No abandono da noite
escuto a solidão
no vôo deste olhar
a cada lágrima
a cada lembrança
somente o delírio
de um leito vazio
no arrepio da alma
tudo tingido de negro
e o luar é vão
enquanto ao longe
a madrugada entoa
canções cortantes
e sussurros partidos
......
assombram-me
as verdades
guardadas
pelos espelhos
......

terça-feira, 21 de abril de 2015

Me paenitet


Ajoelho-me diante de Ti
e peço-Te perdão
não ergo os olhos
para não veres
a vergonha que ostentam.
Minha voz suplica-Te
outra oportunidade
embora eu creia
que não a mereço.
Não tento suprimir 
as pegadas erradas,
nem exorcizar demônios 
que macularam minh'alma.
Espero só dissipar a maldade
salpicada pelo caminho
e assim dedicar-Te a vida
desta ovelha desgarrada
estender-Te as mãos
e oferecer-Te os ombros
para então novamente
servir-Te com alegria.
Aqui estou 
prostrada diante de Ti
o coração pesado
pelas súplicas vazias.
Não espero que esqueças
perdoa-me somente 
aceita-me
acolhe-me
sem que mais nada Te diga