segunda-feira, 16 de abril de 2018

Suanam


Foto: Por-do-Sol em Manaus, por Fmgc

Toda a angústia se desfaz
quando espalho meu olhar sobre ti
e deixo que ele se derrame
em cada canto teu
em cada lugar
encontre ranhuras, lacunas
e as preencha 
porque és minha
sempre foste
te reconheço por cores
e te batizo com sabores
minha sempre amada
de extensos abraços
e de sorrisos sem fim.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Lúcida


Ilustração: Touching Fingers, por  Daniil Peshkov

É bom voltar...

Eu sempre retorno
sozinha... à noite
para onde ninguém imagina
para onde não há testemunhas 
eu sempre volto
sem dinheiro, de mãos vazias
eu sempre volto
e rearrumo a casa
e sinto o cheiro da comida
e limpo a poeira
e reescrevo as histórias...

Eu volto porque preciso
eu me visito por lá
onde vivo esperando
num tempo que ninguém vê
eu volto para falar comigo
eu quero olhar para mim
e perguntar os por quês
e rever os segredos
e entender as escolhas
e me defrontar com sonhos
que deixei para trás

Eu revivo as lutas
e reviro as feridas
eu sempre retorno
e me banho de dor
ou me visto de saudade
e sorrio das mesmas piadas
eu sempre volto
porque é bom voltar
apenas isso...

Talvez um dia
alguns anos a frente
eu me reencontre no hoje
e me assuste 
com a pessoa que sou
mas, por enquanto,
visito o que deixei
e de forma simples, pura
perdoo-me e gosto de mim.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Magma

Foto: Burning Inside, por Vluhd

Sempre me percebo voltando
talvez nem tenha partido
pois tudo está em mim...
a tinta das paredes
as cores dos jardins
o cheiro das ruas da infância
evaporando-se nos sonhos e vôos
de uma criança sozinha
e as lágrimas secretas
descritas nos velhos cadernos
perdidas em meio às gotas 
das chuvas daquelas manhãs
todos os verões e invernos
trago-os aqui comigo
neste universo antigo
aceso em lavas ardentes
a correr pelo meu peito
num testemunho eterno
de uma vida sem sentido...

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Solitaire

Foto: A man on the road, por Guasor

Na curva da estrada
me encontro sozinho
andei tanto e não vi
o que ficou no caminho
sem um aceno
sem um adeus

Voltar não consigo
ir adiante não quero
desconheço a jornada
e não tenho destino
sem tua mão
sem tua voz

Sozinho eu temo
e tremo de frio
onde foi que perdi
a melhor parte de mim?
sem chance
sem tempo

Desisto, enfim.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Seol


Sombras espalham-se nos muros,
arrasto-me pelas ruas.
Sou o que se esgueira,
sou o que espreita
dos becos, dos bueiros, das esquinas...
não faço alarde, ando sorrateiro
aguardo os que vagam pela noite
e retiro-lhes as esperanças.
Ouço seus gritos inúteis, 
pois desconheço a compaixão.
Apresento-me a eles, então...
sou o olhar do assassino
refletido no brilho da lâmina,
sou o lamento das vítimas
banhado no sangue e no medo.
Todo o mal, toda a feiura
que molda os seus pesadelos
conseguirão encontrar em mim.
Sou o senhor da violência,
o mestre do submundo
onde os insanos e os perdidos 
me encontrarão um dia,
no caos cinzento e profundo
semeando vícios e guerras
coberto de lama e pecados.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Meus rios



Foto: Rio Negro, por Ray Baniwa

Naquela noite havia lua.
Minha alma pediu-me: vai! 
A saudade gritou-me: parte! 
Cansada, estendi os braços,
senti o vento a me embalar.
Busquei o firmamento,
vi um céu sereno,
salpicado de estrelas.

Eu, que havia estado 
no fim do mundo
e não encontrara alento...
Por muitas e longas noites
chorara pedaços da minha vida
até transformá-la, 
minuto a minuto,
num imenso rio de saudade.

E as águas profundas
que brotaram de mim,
revelaram-me cidades e aldeias
tais quais os rios de minha terra...
Nascentes que geram vidas,
ouvem lamentos de mulheres,
guardam segredos de guerreiros
e acalmam a sede de animais.

Rios escuros, solitários,
jazigo de náufragos...
Rios sagrados, antigos,
templos dos deuses da floresta.
De dia, cálidos e serenos
banham crianças, 
lavam roupas, conduzem barcos,
misturam lendas a esperanças...
Queridos rios da minha terra.

De noite, misteriosos,
carregam monstros adormecidos.
São assim aqueles rios
de águas mornas e ferozes.
Quero misturar minha vida
aos rios da minha terra,
partir com eles para longe
sabendo que jamais voltarão.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Oásis



Foto: Desert Child, por Alisdair Miller (in DeviantArt)

O que sei do nada
é que não existe sozinho
O tudo é seu anverso
e um sempre estará
onde o outro já esteve
pois nossa vida é fadada 
a períodos de privação
e temporadas de banquetes

Não adianta temer o nada
e almejar o tudo...
Há sobressaltos em ambos
e um enreda-se ao outro
num contínuo ciclo tirânico

O que sei do tudo
é que nos embriaga,
nos pega pelas mãos
e nos ensina a voar
Mas não se demora
e deixa como legado
pobres sepulcros viventes
a gemer úlceras abertas

Para mim, o nada ter
é preferível a esperar
que tudo volte a acontecer
e em meus extensos desertos 
rabisco oásis pelo horizonte

É o nada, 
mas invade 
É o nada, 
mas inunda 

É o nada, 
há quem pense... 
e, apesar de nada, 
sempre vence.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

(Des) gosto

Foto: Tears of Sadness, por Don Vu (in DeviantArt)

Sentia o doce desfazendo-se
na ponta da língua
que se encharcava de mel
quando dizia "eu te amo"

Outras vezes era a amargura
a lhe retalhar a língua
desagradável como fel
quando dizia "adeus"

Agora, pelas tardes de setembro
restou-lhe o gosto de sal
que lhe desce dos olhos à língua
quando nada mais diz...

Texto revisto.
Inicialmente publicado em 02/11/2003. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Busca

Foto: Swimming Towards the Light, por Cole Thompson

Agora me lembro...
em minha infância
contemplava essas águas
imaginando tesouros
e perigos ocultos

afundava minhas mãos
o mais que podia
quase como se quisesse
agarrar o que não via

as mãos voltavam molhadas
às vezes com lodo
às vezes sem nada

O tempo passou
eu caminhei pela margem
até chegar onde estou
esquecendo-me aos poucos
dos mistérios de outrora

e naquelas águas
matei a sede dos dias
na sombra das margens
plantei o que sou

até que num sonho
as vozes das águas
chamaram por mim

e agora me lembro...
dos tesouros e perigos
e sinto novamente
vontade de alcançar
o que não vejo

Afundo as mãos ansiosas
mas elas voltam vazias
o sussurro das águas me diz:
nada há na superfície

coloco então meus pés
nas correntezas febris
despedindo-me da margem

e naquela incerteza
mergulho-me inteira
até que o corpo 
não mais me pertença

enfim, no solitário abandono
no berço profundo das águas
encontro o que tanto procuro.

domingo, 18 de setembro de 2016

Cicatrizes

(Republicação. Texto revisto).

Foto: Andy Warhol, por Richard Avedon

As garras afiadas
do passado
cravaram-se em meu peito
rasgaram-me a pele
abriram-me feridas
por onde escorreram
sangue e lágrimas

O mago do tempo
banhou-as com água e sal
e seu bálsamo generoso
transformou o massacre
em suaves lembranças da dor

O mapa do sacrifício
sobre a pele do cordeiro
foi violento e feroz
passou-se o tempo
curou-se a carne lacerada
restou a alma castigada

A chacina sossega as feras
e no repouso passageiro
não mutilam mais a vítima
apenas a observam
pacientes e impiedosas
antes da nova investida 

Se agora exibo e revelo 
estes feios vestígios
de um passado perverso
é para avisar-te do perigo
para que fujas do cativeiro

não quero tua compaixão
pois não me rendi aos leões
desfiguraram-me a pele 
mas não me tiraram a vida

Afaga-me somente
pois ainda me doem as cicatrizes.